quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de Abril de 1974

Eu tinha sete anos no dia 25 de Abril de 1974.
Andava na 2ª classe e recordo-me de acordar e ouvir os aviões da Base Aérea de Alverca a sobrevoarem a minha casa.
- Oh mãe, o que é que se passa?
- É a guerra, vão levar tudo...
Tudo? Ai, os meus brinquedos, pensei eu. Lembro-me tão bem.
Sempre fui muito ciosa das minhas propriedades, que na altura se limitavam a tachinhos, panelinhas, alguidares, chávenas, pratos, etc. Tinha um saco enorme cheio de tralha que o meu padrinho me trazia da fábrica do Omo, onde trabalhava.
O Omo, para os mais novos, era um detergente em pó para lavar roupa à mão, numa altura em que poucas pessoas tinham máquina de lavar roupa, e que trazia uns brindes nos pacotes. Normalmente uns brinquedos em plástico, de que eu tinha assim uma quantidade industrial.
Lembro-me particularmente de uma balança daquelas antigas com dois pratos que eu adorava de paixão. Sempre fui muito ligada à cozinha...
Pensando na tal "guerra", (a minha mãe ainda é mais dramática que eu), resolvi tomar medidas drásticas.
Abri um buraco no quintal e tratei de pôr as minhas coisas a salvo. Meti todos os meus pequenos brinquedos, na verdade e pensando bem no assunto, os meus primeiros utensílios de cozinha, no buraco e tapei-os novamente.
"Podem levar tudo, menos as minhas coisas", pensei.
Lembro-me tão bem.
Arranjei-me e fui para a escola, de onde voltei recambiada e contrariada, para casa, porque havia uma revolução, palavra desconhecida para mim, e portanto nada de aulas.
Depois lembro-me das músicas na televisão, o "Grândola Vila Morena", "Depois do Adeus", uma de que não sei o nome mas que tinha uma estrofe: "Vi as portas da prisão abertas de par em par, vi passar a procissão do meu país a cantar, agora o povo unido, nunca mais será vencido...". As coisas de que me lembro. O meu disco rígido é ilimitado para estas porcarias...
Aos poucos fui adquirindo outros conhecimentos sobre o dia em que não tive escola e percebendo a importância que isso tinha para as pessoas, para o país.
Aos sete anos a perspectiva de um país mais livre não me dizia grande coisa. Lamento, mas os meus brinquedos eram muito mais importantes para mim.
Anos mais tarde, por volta dos anos oitenta, na altura em que Portugal descobriu as marquises, uma coisa que nunca devia ter sido inventada, de tão feia que é, os meus pais, sempre muito atualizados nestas coisas, também construiram a sua marquise.
Onde?
Exatamente por cima dos meus brinquedos que ainda estavam enterrados onde os escondi para os proteger da "guerra" e onde ainda hoje estão.
Imaginem daqui a uns milhares de anos, as civilizações futuras a procederem a escavações naquele sítio e as notícias das descobertas: "No século vinte as pessoas eram minúsculas. Vejam o tamanho dos seus utensílios de cozinha". E tudo por culpa de uma cachopa dramática que resolveu proteger de forma radical as suas preciosas propriedades.
E já agora ficam a saber que continuo tão dramática como era no dia 25 de Abril de 1974.

O que aprendi com as minhas filhas?

É daquelas perguntas que nunca tinha colocado a mim mesma.
Mas hoje estava a ler um artigo na revista Activa onde a questão é colocada e fiquei a pensar no assunto.
O que aprendi com as minhas filhas?
Acima de tudo aprendi a amar incondicionalmente. Aprendi que o bem estar, a felicidade, o sorriso das minhas filhas são as coisas mais importantes do mundo para mim.
Lembro-me do dia em que nasceram e olhei para elas pela primeira vez e senti o coração tão cheio de um sentimento tão novo.
E lembro-me de sentir um medo enorme que dura até hoje.
Medo de não conseguir, de não ser suficiente, de não ser boa mãe, de não me amarem como eu as amo a elas, de... tudo!!!
As mães têm medo de tudo. É uma coisa horrivel, que não se consegue controlar e que nos leva a fazer coisas que nos parecem depois completamente ridiculas.
Eu tenho algumas dessas coisas que as minhas filhas me recordam de vez em quando entre gargalhadas de puro gozo com os meus medos.
"Oh mãe, és tão dramática".
Pois sou. Muito dramática mesmo. É uma tragédia, mas infelizmente para as três não há nada que eu possa fazer para evitar. É assim uma daquelas coisas que eu vou levar comigo para o forno (eu quero ser cremada quando morrer, por isso não posso dizer para a cova...).
Voltando ao que aprendi com elas...
Aprendi que posso ser uma pessoa muito obcecada. O meu instinto animal, como elas dizem, é verdadeiramente selvagem, quando alguém se mete com as minhas loiras.
Não há nada a fazer, instinto animal e amor e medo maternal são uma mistura explosiva.
Aprendi que sou muito teimosa... A mais nova tem muita coisa de feitio em comum comigo e, se por isso, muitas vezes percebo bem as reações dela, também percebo o quanto posso exasperar as pessoas.
Aprendi que posso ser capaz de matar alguém que as faça sofrer e odiar pessoas de paixão.
Aprendi que estou sempre desactualizada em termos musicais: "Tu só ouves as músicas da M80". É mentira, ouço outras coisas, mas nada que elas considerem música.
Aprendi que a cumplicidade entre as duas acaba sempre por se virar contra mim. Em caso de dúvida estamos as duas contra a mãe.
Aprendi que sou capaz de controlar muita coisa em mim para as proteger.
Aprendi que posso comer pizza para lhes fazer companhia.
Aprendi a viver com barulho e passei a adorar ter os amigos delas em casa para as ter mais ao pé de mim. E que gosto genuinamente deles e que nem todos os adolescentes são "rascas". Alguns até são miúdos fantásticos.
Aprendi que ser mãe significa deixar crescer, largar, que cortar o cortão umbilical não é coisa do momento do parto, mas sim uma coisa para a vida. Todos os dias cortamos um bocadinho. E todos os dias dói, mas também nos dá uma enorme sensação de orgulho. É que cada corte significa que elas cresceram mais um bocadinho.
Aprendi o que é ter alguém dentro de nós durante nove meses em que me senti tão feliz e completa e de repente a sensação de vazio quando elas nasceram.
Aprendi a lidar com namorados, amigos, professores, pais dos amigos, festivais de verão, férias com os amigos, medo...
Aprendi tanto com as minhas filhas. Aprendo todos os dias e desejo muito que elas também aprendam comigo. Mas isso só elas poderão dizer.
E isto foi outra coisa que aprendi, a sentir-me sempre na dúvida. Será que estou a fazer isto bem?
Resumindo: Amor, orgulho, dúvida, respeito, proteção, crescimento, apendizagem, vida. Tudo isto as minhas filhas me ensinam todos os dias.
E esta aprendizagem ainda mal começou...
Porque isto de ser mãe é coisa para durar até ao forno!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Pedro Passos Coelho

"Quem anda sempre com um martelo na mão, tudo lhe parece um prego..."
A frase é de Pedro Passos Coelho no último congresso do PSD este fim de semana. Eu até acho, embora não tenha votado nele, que o atual primeiro ministro é um homem inteligente. Embora tenha que confessar que começo a ter as minhas dúvidas.
Senão vejamos:
Para que Portugal possa voltar aos mercados é necessário que sejam cumpridas todas as condições impostas pela Troika. Até aqui tudo bem, ou melhor tudo mal, que isto começa a ficar cada vez mais difícil comer, vestir, calçar e manter os filhos na escola, enquanto se continuam a pagar impostos e empréstimos de casas e carros...
Agora as medidas, acho eu, deviam ser no sentido de fazer crescer a economia de Portugal. Não é verdade?
Ora se as empresas não aguentam os impostos e continuam a mandar trabalhadores para o desemprego, que por sua vez perdem poder de compra e deixam de pagar impostos...
Se não se consome, não se produz, se não se produz não se pagam impostos, se não se pagam impostos... Já perceberam?
Pois parece que o senhor Passos Coelho que é tão inteligente (e bem apessoado, como se diz na minha terra) só agora começa a perceber esta coisa tão básica e elementar.
Na semana passada o governo anunciou uma quebra de não sei quantos milhões na cobrança de impostos. Resultado, claro está do enorme crescimento do desemprego que já vai para aí nos 14% e com tendência a subir...
Sr. primeiro ministro não me diga que não tinha previsto que uma coisa tão básica e tão óbvia até para mim que sempre fui uma nódoa a fazer contas, ia interferir com os planos de cumprimento das metas impostas pela troika.
E já agora, tão ou mais grave ainda, será que os senhores do FMI também não tinham percebido isso?
Basta olhar para o exemplo da Grécia...
Indo pelo trocadilho fácil - Estão-se a ver gregos com a crise!!!
Comece mas é a pensar em fazer novas continhas à sua e à nossa vida, senhor primeiro ministro.
E não se esqueça de incluir na sua equaçãozinha, de segundo ou de terceiro grau, ou seja lá qual for o grau, que as pessoas para além dos impostos, também têm que comer, vestir, calçar e continuar a ter dinheiro para o basico. Sim porque enquanto os seus antecessores andaram a brincar com o nosso dinheiro, não nos pergutaram se estávamos de acordo. E convenhamos não foi o povo que pôs o país no estado em que está. Porque é que temos que ser nós a pagar? Porque é que ninguém vai pedir contas ao Pinóquio, também conhecido por Engº Sócrates?
Porque é que o cobarde maior deste pequeno país à beira mar plantado pode continuar impunemente em Paris, a fazer um pseudo-curso de filosofia (devia ser era de roubo e extorsão, mas aí, claro ele já tem um mestrado), e nós temos que continuar aqui a levar com as consequências das asneiras dele?
Mas será que aquele desgraçado não pode escorregar numa baguete bem barrada com manteiga e partir qualquer coisinha? Tipo a língua, ou o nariz, ou o cóccix, o que iria lixar-lhe a vida por muito tempo.
Porque sabem que ele... Ninguém nunca provou nada, mas eu aposto que é verdade.
Estes políticos são mesmo uns escroques. Primeiro o bochechas, depois o algarvio cínico e cobarde, depois o Pinóquio e vamos ver como se sai o atual.
A minha opinião?
CAMBADA!!! Deviam obrigá-los a viver com o salário mínimo durante um mês para verem se eram capazes.
Eu por mim bem sei o tratamento que lhes dava.
Ferro 7!!!!

quinta-feira, 22 de março de 2012

As coisas que me fazem confusão

Faz-me confusão que as pessoas não atravessem nas passadeiras e simplesmente se ponham a "tourear" os carros no meio da rua, passando devagar, sem olhar e se temos a ousadia de lhes apitar, ainda olhem com ar recriminador. Até já me insultaram, acreditem ou não. Mas também não pensem que eu me calei...
Faz-me confusão que hoje em dia toda a gente estacione, como se diz na minha terra "a torto e a direito", sem pensar nas consequências que isso pode ter para os outros. Mais me espanta que sempre que eu chamo a atenção das pessoas (a frase que circula no facebook - estupidez não é deficiência já eu usei há muito tempo atrás ), ainda me insultem e falem como se estivessem carregadinhos de razão.
Faz-me confusão que ninguém seja capaz de levantar um dedo para defender alguém. As pessoas passam na rua, podem ver alguém a ser esfaqueado e ninguém diz nada, ninguém faz nada, ninguém quer saber...
Faz-me confusão que se use a crise como desculpa para quase tudo: conduzir mal, estacionar pior, atravessar fora do sítio, ser mal educado com toda a gente, não dizer se faz favor, com licença, desculpe e muito obrigado.
Faz-me confusão que os frequentadores dos sites só façam comentários negativos às coisas, só tenham coisas más para dizer e destilem o seu veneno e frustrações em cima de pessoas que nem conhecem.
Faz-me confusão que o meu vizinho de cima não ponha protecções nos pés das cadeiras e faça uma barulheira terrível todos os dias. Ou então muda os móveis de sítio a toda a hora.
Faz-me confusão que o carteiro aqui da zona nunca se digne tocar a campaínha e me obrigue a ir a toda a hora aos correios para levantar correpsondência registada.
Faz-me confusão que as senhoras de idade que frequentam o supermercado ao pé da minha casa achem sempre que estão com mais pressa do que eu...
Faz-me confusão que um bando de miúdos semi-adolescentes, mais para o lado do criança estejam na rua a enrolar charros e ninguém faça nada. Mas toda a gente se insurgiu contra o Toy por acender um pseudo charro na televisão.
Faz-me confusão que a Câmara de Santarém não tenha dinheiro para comprar uma latinha de tinta para pintar as passadeiras desta terra que estão praticamente invisiveis.
Faz-me confusão que a passadeira mais perto da minha casa tenha origem ou fim, dependendo do ponto de vista num muro ondem nem sequer existe passeio.
Faz-me confusão que as finanças nos possam roubar descaradamente e que não tenhamos hipótese de refilar. Quer dizer, eu refilo, mas não adianta nada. Só desabafo.
Faz-me confusão que as pessoas gritem com os filhos na rua ou em locais públicos e mais ainda que cheguem ao cúmulo de lhes bater.
Faz-me confusão que toda a gente precise de uma Bimby para cozinhar.
Faz-me confusão não gostar de chocolate que toda a gente diz ser uma coisa maravilhosa.
Faz-me confusão que a minha gata tenha uma carrada de brinquedos e goste mais de elásticos de cabelo e de uma moeda de vinte cêntimos que roubou de cima da minha secretária.
Faz-me confusão que as pessoas se preocupem mais com a vida dos outros do que com as suas próprias vidas.
Faz-me confusão que toda a gente se queixe de não ter dinheiro mas continue a andar de carro para todo o lado e os restaurantes mais caros continuem cheios e que continuem as filas na Segunda Circular na hora de ponta e os aviões continuem cheios.
Faz-me mais confusão ainda que pessoas que quase não têm dinheiro para comer não sejam capazes de abdicar de fumar, que é um verdadeiro vício de luxo, hoje em dia.
Faz-me confusão que os miúdos hoje em dia precisem de beber para se divertirem.
Faz-me confusão que os pais não eduquem os filhos e depois se queixem de que eles são malcriados e culpem as escolas disso.
Faz-me confusão que alguns pais se divorciem em simultâneo das mulheres e dos filhos, como se eles não fossem também do seu sangue.
Faz-me confusão ouvir as mulheres dizerem: "O meu marido não passa tempo comigo, nunca me leva a lado nenhum, não faz nada pela nossa relação..." E elas fazem? Ou simplesmente não têm vida própria e limitam-se a viver as vidas dos maridos?
Faz-me confusão que as pessoas não façam nada por elas e depois se queixem a toda a hora.
Faz-me confusão que uma mulher que seja vitima de agressão continue a viver com o seu agressor.
Faz-me confusão que as pessoas maltratem as crianças e mais ainda, ao nível do nojo, a pedofilia.
Faz-me muita confusão que os pais sejam capazes de torturar e matar um filho.
Tanta coisa...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A cabeça debaixo de água

Eu acho que já escrevi aqui que sou uma pessoa estranha e que tenho assim uma grande quantidade de coisas que faço ou não faço e pelo menos duas fobias - uma é às aranhas e é uma coisa horrorosa que já me deu alguns momentos muito embaraçosos e aterrorizadores; a outra é... estão preparados? Pôr a cabeça debaixo de água.
Eu sei. É estranho, mas eu não ponho a cabeça debaixo de água. Digamos que é assim uma espécie de fobia. Falta-me o ar (literalmente, claro). Não sei explicar, mas entro em pânico e começo a imaginar que vou morrer sem respirar e só consigo recuperar quando estou bem à superficie e com ar à minha volta.
Eu não me lembro muito bem de como isto começou, mas acho que foi numa colónia de férias onde estava um primo meu e que nós fomos visitar um dia. Qualquer coisa ali para os lados da Praia das Maçãs.
A minha mãe nunca entrou no mar na vida dela, nem nunca vestiu um fato de banho tão pouco e é tão especial (leia-se estranha) ao ponto de dizer que ir à praia lhe causa infecções urinárias??????????
Não me façam perguntas dificeis, também nunca percebi.
Voltando à Praia das Maçãs...
Eu estava com a minha mãe e a minha tia e era pequenina, nem sei se não terá sido a minha primeira ida à praia. Uma senhora muito simpática que estava ali ao lado ofereceu-se para me levar à água. Até aqui tudo bem. Das minhas recordações tenho presente alguém a dizer-me: Se abrires os olhos vais ver o fundo do mar. Esqueceram-se de me dizer que não devia abrir o nariz, nem a boca. Não correu nada bem. É a memória mais antiga que tenho com água e com a cabeça lá dentro.
Eu sou a única pessoa que conheço que sai do banho com a cara seca. Adoro lavar a cara, não pensem que não lavo, mas com água fria no lavatório, nada de água de duche a correr pela cara abaixo, que até quando vejo nos outros me perturba imenso.
Por isso nunca entrei numa piscina de cabeça, vulgo mergulho. Mas é que nem pensar. Eu entro pela escada como as pessoas civilizadas e as minhas filhas sabem que a pior coisa que pode haver para a estranha mãezinha delas é atirarem-me água à cara. Ou para cima no geral, porque odeio água fria e o meu termostato é muito diferente do das outras pessoas. O que para a generalidade da humanidade é uma água maravilhosa, para mim é um gelo. Nem queiram saber como é a água do meu banho. Mas só vos digo que ninguém consegue tomar banho comigo...
Aqui há uns anos estava de férias com o meu marido no Brasil. Tinhamos chegado no dia 30 de dezembro, felizes e contentes, pelo menos eu que adoro calor, para passarmos o reveillon. Como chegámos à noite já só tinha o dia 31 para ganhar uma corzinha que me tirasse o tom doentio de inverno que levamos deste país da treta cheio de frio.
Chegámos e fomos direitos à Praia do Forte. Picanha, caipirinha, cervejinha, matar saudades dos sabores da terra. Daí fomos para casa e quando chegámos a Iraci, que é uma pessoa maravilhosa tinha apanhado uns abacaxis no quintal e guardado para mim na cozinha. Comi um inteiro. Vá, não façam essa cara, são muito mais pequeninos do que os de cá e mais estreitos também. Mas são tão boooons. Até perfumam a boca.
Deitei-me cansadinha das nove horas de avião e dormi lindinha até me cheirar a café. A Iraci faz café como o das nossas avós, tipo cafe de cafeteira. Uma maravilha, acordar com o cheirinho a café, abrir a porta do quarto e dar de caras com uma mesa com fruta, café, pão, queijinho de Minas...
Tomei o pequeno almoço e praia com ela. Apanhei sol, comi mais umas coisinhas, bebi uns suquinhos, maravilhosos, como sempre e almocei uma bela moqueca de camarão com arroz branco, saladinha e muita cervejinha. Estão a anotar a quantidade de comida que eu já tinha no estômago por esta altura? É que é muito importante para o desenrolar da história.
Quando estavamos a acabar de almoçar apareceram uns amigos nossos de Portugal que também tinham chegado para o reveillon. Sentaram-se, acabamos de comer todos juntos e entretanto convidaram-nos para dar um passeio de barco ao longo da costa.
Vamos embora pensei eu, no meio da água vou ficar preta num instante. Lá fomos nós para um antigo barco de pesca (muito antigo), com um cheiro inacreditável a gasoleo.
Eu até nem enjoo em barcos, tenho carta de marinheiro e tudo, por isso não se ponham a fazer contas de cabeça.
Ao fim de um bocado comecei a sentir uma nausea muito familiar e recorrente durante as minhas diversas idas ao Brasil. Tentei ignorar, nem sei porquê porque já estou cansada de saber que não resulta.
Mas é que odeio vomitar.
Aguentei até conseguir e quando já não podia mais meti a cabeça para fora do barco e comecei a vomitar...
Vocês não me conhecem, mas eu quando começo... Já cheguei a fazer uma viagem do Algarve até ao Cartaxo sempre a vomitar. Só para terem noção.
Estava super mal disposta e o cheiro do barco começou a tomar conta da minha cabeça. Não me conseguia abstrair... Estava a ficar cada vez mais intenso. E eu vomitava, e vomitava, e... pronto já perceberam!
Às tantas não aguentei mais. Pensei: "prefiro morrer afogada do que com este cheiro". É verdade, sou uma pessoa muito dramática, mas estava mesmo mal disposta.
Atirei-me do barco para aí a uns 150m da costa, pelo menos é o que o meu marido diz. Quando ele me viu a sair disparada do barco pensou que eu estava doida e que tinha que estar muito aflita para me sujeitar a meter a cabeça debaixo de água. Atirou-se atrás de mim, claro, que se ficasse viúvo tinha que cuidar das miúdas e da gata sózinho. E acho que também um bocadinho porque gosta de mim. Não sei como mas consegui nadar até quase à praia. E digo não sei como porque eu a nadar sou uma coisa maravilhosa e as minhas filhas até costumam dizer que eu inventei um novo estilo - bruços mas com a cabeça sempre à tona e muito direitinha. Pronto.
Quando cheguei à praia, já com o meu marido a apoiar-me estava semi desmaiada, (há partes que não me lembro), cheia de frio, fico sempre cheia de febre com estas coisas, e só levantava a cabeça para continuar a vomitar.
Acreditem ou não vomitei até ao abacaxi da noite anterior. Imaginem lá como é que o meu estomago estava.
Fiquei não sei quanto tempo na praia com a cabeça deitada no colo do meu marido, a vomitar nada, porque já tinha o estômago vazio e cheia de frio.
Os nossos amigos regressaram e levaram toalhas para me taparem enquanto decidiam o que fazer com o meu quase cadáver... (estão a ver a tal veia dramática?).
Perdi a noção do tempo, lembro-me ouvir uma brasileira a dizer:
- Nossa eu acho que ela tá morta, viu? Porque tem as unhas tudo roxo...
E eu a pensar: A mulher tá parva coitada, não estou nada morta, estou a ouvi-la muito bem e a deixar de ouvir tudo outra vez.
Os nossos amigos queriam chamar um médico, mas o meu marido que infelizmente já está habituado a estas coisas, sossegou-os:
-Quando ela estabilizar levo-a para casa. A empregada tem lá um chá que lhe costuma fazer muito bem.
coitadinho, já me aturou tantas destas. Normalmente nas férias. Uma vez em Barcelona... fica para outra vez.
Já começava a escurecer quando me conseguiram levantar e levar até ao hotel onde eles estavam que era ali muito pertinho.
Deitaram-me numa cadeirinha da piscina, taparam-me com cobertores ou com um edredon, estavam para aí uns 30 graus, mas eu tremia...
Deram-me água morna a beber, e fui estabilizando. Comecei a pedir água e finalmente pedi para ir para casa.
Isto até pode parecer fácil, mas esperavam-me assim uns sete quilómetros por um caminho de terra batida, que é buraco, buraco, buraco...
Levantei-me, deitei toda a água que tinha bebido fora de um jato e lá consegui chegar ao carro e daí a casa.
Não preciso de dizer que a minha passagem de ano foi na caminha, meia em coma, como fico sempre quando tenhas estas coisas e a do meu marido no terraço lá de casa a brindar sozinho ao ano novo com uma cerveja na mão. Tadinho. Nem sei como ele me atura.
Foi a única vez na minha vida que meti voluntaria ou involuntariamente a cabecinha debaixo de água. E espero não repetir a experiência.
Um dia destes conto-vos o meu problema com as aranhas.
Ainda se vão rir...

sábado, 14 de janeiro de 2012

Eu e os livros

A minha relação com os livros é tão antiga na minha vida como a minha relação com os tachos. Não acreditam? Pois para que conste eu com 4 anos já sabia ler. E bem!
Mas não faz mal que não acreditem. Na altura também ninguém acreditou em mim, as crianças são sempre incompreendidas. Eu que o diga!
Mas vamos ao que interessa.
Eu tinha quatro anos e fiquei doente pela primeira vez (lembram-se da história da injecção? Pois foi dessa vez) e como naquela época tão pré-histórica não havia Playstation, PSP, computadores ou sequer televisão no quarto, o que também não havia de valer muito a pena com apenas dois canais, e como eu nunca fui muito boa a estar quieta, chegou a uma altura em que já ninguém me podia aturar lá em casa e estavam capazes de me dar o que quer que fosse para eu deixar de me queixar da vidinha. Não se esqueçam que eu tinha quatro anos.
Adiante. Um dia depois do jantar, o meu pai e o meu padrinho, que morava connosco, antes de sairem para beber café perguntaram-me se eu queria que me trouxessem alguma coisa.
- Quero. Tragam-me livros daqueles que estão ao lado do balcão com o Mickey e o Pateta.
- Livros? Para que é que tu queres os livros? Nem sequer sabes ler.
- Sei sim senhor! Sei ler muito bem. Tragam-me lá os livros que eu já mostro se sei ou não sei. (Sempre fui tão refilona, graças a Deus).
- Pronto, pronto, não te zangues. Nós trazemos-te os livros.
E trouxeram. Eram dois livrinhos pequeninos, não sei explicar bem porque agora não vejo nada do género a vender, mas eram da Disney e tinham tipo um desenho em cima e um bocadinho de história em baixo ou ao contrário. Um era do Mickey e do seu fiel cãozinho Pluto e o outro do Goofy, que como todos sabemos é o Pateta.
- Lê lá ó espevitada. Já que sabes ler tão bem.
E eu li. Ah pois foi, calei-os num instantinho. Não lia rapidamente, mas conhecia as letras e sabia juntá-las e formar as palavras.
Ficou tudo de boca aberta, sem perceber nada do que se estava a passar.
Mas tudo na vida tem uma explicação e infelizmente tenho que admitir que, por muito que isso me agradasse, não sou nenhum génio.
A minha mãe trabalhava em casa de costura e para me entreter, e eu não era fácil, porque nunca me calava, comprou um livro da 1ª classe (para os mais novos, 1º ano do ensino básico) e ia-me mostrando as imagens e dizendo as letras - 'a' de águia, 'e' de égua, 'i' de igreja, 'o' de ovo e 'u' de uva. O livro continuava com o abecedário muito bem explicado com uns desenhos amorosos dos quais ainda me lembro muito bem (agora tenho 45 anos, mas continuo a falar pelos cotovelos) e na parte final quando era suposto já se saber juntar as letras, tinha algumas histórias.
Ainda me lembro que uma delas era o "Milagre das Rosas", aquela história da rainha Santa Isabel, que transformou o pão em rosas, lembram-se?
De tanto repetir fui memorizando as letrinhas. Sempre tive uma memória fantástica, agora é que estou um bocadinho mais esquecida, mas claro que é da idade. Ai...
Enfim, a minha mãe estava convencida que eu sabia o livro de cor e por isso quando eu pegava e 'lia' as histórias do mesmo, ela achava que eu estava só a 'fazer género'. Vou voltar a dizer, as crianças são sempre incompreendidas.
Por isso imaginem as caras deles a olharem para mim e verem uma verdadeira amostra de gente (eu fui sempre mínima) a debitar uma história que nunca tinha visto na vidinha.
E claro que nem preciso de dizer que levaram comigo no fim.
- Então? Sei ler ou não sei? Mas porque é que nunca ninguém acredita em mim? Se eu disse que sabia é porque sabia não é? Se não não dizia.
A lógica infantil é imbatível.
- Sabes sim senhora, muito bem, mas como é que aprendeste?
Pronto tive que lhes explicar o b-a, ba.
A partir daí nunca mais parei. Natal, aniversários, as minhas listas eram sempre de livros. Ainda hoje são, só que agora também incluem acessórios de cozinha...
Devia ter uns nove anos quando me ofereceram o primeiro volume de "Retalhos da Vida de Um Médico", de Fernando Namora, uns meses antes de começar a passar a série na televisão.
Nessa altura já tinha devorado tudo o que Enid Blyton tinha escrito, Cinco, Sete, Cinco Descobridores e o Seu Cão, Colégio das Quatro Torres, Colégio de Santa Clara...
Já tinha lido algumas coisas de Camilo Castelo Branco e Eça de Queirós e a dona da livraria onde o meu pai costumava comprar os meus livros já não sabia que mais havia de recomendar porque achava que eu ainda era muito miúda. Portanto lembro-me que quando abri os meus presentes no dia de Natal desse ano, (na minha infância abriam-se no dia 25 e era o Menino Jesus que os dava, o pai Natal é uma invenção da Coca-Cola), descobri os dois volumes de Retalhos da Vida de Um Médico e um mundo completamente novo para mim. Foi preciso ameaçarem-me para me sentar à mesa, já com metade do primeiro volume lido.
Fiquei apaixonada de tal forma que enquanto não consegui ter os livros dele todos, guardei todo o meu dinheiro de semanadas, padrinhos, tios, tudo para a livraria e acho que chorei quando ele morreu, ja eu era adolescente. Era uma emoção chegar a casa com um livro novo e aquele cheirinho do papel, que ainda hoje amo, e descobrir personagens tão diferentes, vivências... mundos completamente novos para mim.
Depois veio Júlio Dinis, Júlio Verne, passei a fase policial, entrei no romance, lia tudo, mas mesmo tudo o que apanhava a uma velocidade que era impossível de descrever.
Uma paixão que descobri com quatro anos e que me ficou para a vida. Posso entrar e sair de uma loja de roupa sem nada, de uma sapataria, perfumaria, o que for, mas de uma livraria é dificil. Adoro a Bertrand que existe no shopping ao pé da minha casa e onde os empregados já me conhecem para lá de bem. É preciso estar muuuuuuuuuuuuito em baixo de finanças para resistir a um novo título. Adoro livros com histórias reais, romances históricos, romances, poesia, basicamente tudo.
Adoro ler.
O melhor emprego que tive na minha vida foi a escrever as páginas de literatura da revista Focus - pagavam-me para ler e ainda por cima me mandavam os livros. Era mesmo bom. Ficava estendida no sofá a 'trabalhar'. Arduamente, garanto que nessa altura trabalhava sempre arduamente.
Quando vou de férias levo sempre um carregamento de livros, normalmente um meio a dois por dia, dependendo do tema, do autor, do número de páginas. O meu marido fica doente:
- Precisas mesmo de levar isso tudo? Não podes comprar lá?
Não, não posso. Preciso de os escolher com calma, de os 'saborear' e decidir o que levar já faz parte do gozo das férias.
PORQUE É QUE NINGUÉM ENTENDE?
A par de cozinhar, ler é das coisas que mais gosto de fazer e aquela que me permite alhear-me do mundo.
Consegui passar esta paixão às minhas filhas. Não tão intensa, mas adoram ler o que me deixa muito feliz.
Tenho tanta pena das pessoas que dizem não gostar de ler.
Entrar num livro, na história, na cabeça das personagens, criar um filme na nossa cabeça é muito bom.
Por isso odeio os filmes dos livros. São tão insípidos. Nunca conseguem transmitir nada daquilo que eu estou à espera.
O meu livro de cabeceira? São tantos... A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, Os Cisnes Selvagens, Memórias de Uma Gueixa, Fauziya Kasinga - As Lágrimas do Silêncio (Mutilação Genital Feminina), Amanhecer, sei lá, são tantos.
O que estou a ler agora? Dei-te o Melhor de Mim, Nicholas Sparks e Raparigas da Villa de Nicki Pellegrino.
O que vou ler a seguir?
Ainda não sei, mas apetece-me voltar a reler algumas coisas como Os Maias e O Monte dos Vendavais, que uma amiga me ofereceu há algum tempo e que adorei.

 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Já tou farta de tanta crise e de tanta choraminguice...

Este país é um colosso. Tá tudo grosso! Tá tudo grosso! Anda tudo a fazer pouco... da gente!!!
Lembram-se?
Era um dos sketchs feitos pela Ivone Silva e penso que pelo Camilo de Oliveira num daqueles programas da RTP 1 e continua tão atual como sempre.
Com uma diferença - os portugueses aprenderam a queixar-se, a choramingar, a fazerem-se de coitadinhos, desgradaçadinhos, VITIMAS...
É que já não há paciência. Eu sei que as coisas estão péssimas, senti-o na pele, no negócio que achei que ia ser o meu salto para outro nível, sinto-o todos os dias quando vejo os preços a subir mais rápido que os balões de ar quente. Mas daí até andar toda a gente com cara de "todos me devem e ninguém me paga", vai uma senhora distância. Os portugueses têm que começar a olhar um bocadinho mais além do próprio umbigo, a ser menos egoistas e sobretudo a pararem com a história da desgradaçadinha.
BOLAS. O fado foi promovido a Património da Humanidade, mas isso não quer dizer que façamos da lamentação o nosso lema colectivo. Abstenham-se, se faz favor. Já chega de vitimismo (não sei se esta palavra existe, mas é óptima para este caso), comecem a levantar a cabeça e a mostrar algum orgulho.
CARAÇAS! Mas nós somos descendentes de Vasco da Gama ou do Rato Mickey?
E que tal pararem de se queixar e começarem a procurar o que fazer? Ok, eu concordo, os empregos estão difíceis, mas ainda há trabalho...
Às vezes dá-me uma vontade de abrir a boca e começar a insultar determinado tipo de gente. A sério!!!???
É mesmo necessário andar toda a gente mal disposta e com cara de cú? Não podemos seguir o exemplo dos brasileiros? Hoje tem arroz, amanhã a gente vê... Vá lá, vamos começar a pensar que já vivemos muito pior.
Quando eu era miúda a televisão tinha dois canais e os dois eram a preto e branco. E não havia cá comandos. Levantávamos o rabinho do sofá (mais cadeiras, mas pronto) e mudávamos de canal no botãozinho da televisão - uma maneira de fazer exercício.
Compravam-se coisas como bolachas, chocolates e afins quando o rei fazia anos e não todos os dias.
Almoçava-se fora em dias de festa e não sempre que não nos apetece cozinhar.
Compravam-se sapatos quando se precisava deles e não porque são giros, baratos e toda a gente tem.
E a roupa seguia pelo mesmo caminho...
E os presentes de Natal eram aguardados com muita expectativa, porque eram mesmo necessários, e não superficiais como são agora.
Francamente, acho que mesmo as pessoas mais velhas parece que já se esqueceram do que era a vida antigamente, sem as tretas e as manias que hoje temos. Sem luxos, sem consumismos...
É urgente que os portugueses comecem a fazer contas à vida e percebam que nem toda a gente pode gastar o mesmo só porque o vizinho gasta, ou ter o que o vizinho tem, ou ir de férias para os mesmos sítios, ou comprar as mesmas roupas, sapatos, carros, mobílias, etc.
Perderam-se tantos valores...
Já não se aproveita, fica tudo escandalizado com a palavra aproveitar. Que eu saiba o desperdício é que é mau. Sempre me ensinaram desde pequenina que no aproveitar é que está o ganho...
Pois eu ainda me lembro e por isso aproveito o que posso, em termos de comida, roupa, etc. Não vejo mal nenhum nisso. Aproveito as promoções, os cupões e os talões e as aproximações do fim de validade e cozinho e congelo e reciclo e quem não gosta temos pena. A vida não está para brincadeiras e antes aproveitar do que faltar comida na mesa.
Esta mania das grandezas que atingiu os portugueses vai ter que acabar. A bem ou a mal e o mais certo é ser a mal.
Eu por mim já comecei a fazer as minhas conservas e compotas, os meus rissóis, pasteis e croquetes, para as emergências. E quem não sabe acho melhor começar a pensar em aprender, que as empregadas domésticas também devem ter tendência a acabar. São um luxo, como tantos outros.
Conheço pessoas que nem trabalham, estão em casa e têm uma empregada porque "não tenho jeito para cozinhar, não sei passar a ferro, não gosto muito destas coisas da casa". Tenham dó!
Toda a gente sabe, só é preciso querer... E o problema é que as pessoas não querem. Acomodaram-se, estão bem assim.
Estou mesmo sem paciência para estas tretas.
Como diz a outra: "Cresçam e apareçam!"
E rápido, se faz favor!!!